O retorno dos despertos

Existe quase que um mantra na cabeça daqueles que um dia resolveram mudar de vida: “nunca pensei se seria fácil, simplesmente segui meu coração”. E nessa de nunca ter parado para pensar se seria difícil mudar tanto de vida, a gente começa a passar pelas mudanças como alguém que troca de roupa — uma vez que não serve mais, pronto, há que trocar e começar a vestir outra vestimenta, alguma que se encaixe minimamente em quem você sente ser naquele momento.

Parece conversa de louco, mas abandonar um estilo de vida depois de passar por uma experiência espiritual parece até que virou moda. Quantas pessoas tenho escutado falar que andam por aí abandonando estilos de vida obsoletos para procurar recomeçar do zero, totalmente diferentes. Mas o fato é que viver essas experiências não é para amador. Exige um certo nível de maturidade psicológica e emocional. Por mais de trinta anos eu fui uma pessoa e, depois dos 33, nada mais foi como antes: abandonei carreira, cidade natal, amigos e então deu início a uma jornada de vivências cheia de mistérios e de um profundo exercício da fé. Mas o fato é que, depois de tanta mudança, o corpo físico pede arrego. Mas há uma benção que surge do amadurecimento: o corpo mental já entendeu que não faz falta que as transformações sejam externas. Nem mesmo é necessário sair “caçando” campos energéticos, vórtices, centros planetários, muito menos os campos de hieróglifos. Basta entender que tudo passa dentro e que o lado de fora é só uma “película” mais ou menos projetada com aquilo que reverberamos.

Mas toda e tanta mudança cansa. Os cabelos já vão embranquecendo, a vitalidade já não é a mesma. Frustrações, decepções, desilusões passam a fazer parte do repertório do ego que já se sente mais relaxado e não se importa mais em saber tudo ou querer controlar tudo. Até mesmo porque ele já entendeu que não tem domínio sobre nada. E então a gente começa a ver que não está tão solitário no caminho espiritual. Que há muitos buscando o mesmo, só que uns com mais afinco que outros. Há os “pseudo-espirituais” — que abandonam uma carreira, mas têm uma família que os financia para dar aulas de yoga ainda que tenham apenas dois ou três alunos. Há os que contam com o apoio de amigos que os ajudam com o “refazer” a vida material, que por tanto tempo foi esquecida na ilusão de que a matéria não tivesse nada a ver com a espiritualidade. E há os que suportam todo o processo calados: precisam se bancar sozinhos, sim, sem o apoio de ninguém (no plano material), mas sabem que está tudo certo, ainda que sua vida econômica esteja totalmente desestabilizada. E ele agradece por estar vivo, respirando e poder trocar experiências com pessoas comuns na rotina do cotidiano, sem nada mais do que isso desejar, sem nada esperar.

E sabe qual é o mais inusitado na vida dos que despertaram — verdadeiramente — um dia? É que eles retornaram, estão entre nós, mas não se importam em ser reconhecidos. Estão trabalhando com serviços simples, comuns, obedecem a chefes desequilibrados e até são alvos de energias densas que realmente tentam desarmonizar sua paz. Mas eles já entenderam que não estão aqui para serem servidos, mas sim para servir e, por isso, em silêncio, seguirão transitando este plano até o dia em que a próxima viagem seja para a pátria espiritual, a verdadeira e única casa, de onde já não precisarão mais retornar.

Fernanda Paz
fernandaborgespaz@gmail.com
* Este artigo também está disponível em espanhol na Revista Virtual Llaves de Luz, número 28, de junho de 2025.
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